Pelo menos em parte do estacionamento da USP parece que não teremos mais problemas com as enchentes. A CPA, Camada Porosa do Asfalto, desenvolvida por uma equipe do Departamento Hidráulico da Universidade foi instalada e já está absorvendo as águas das chuvas na região.
Não há mais como jogar para “debaixo do asfalto” a grande quantidade de enchentes que tem acontecido no Brasil. Desastre na região Serrana, chuvas alarmantes em Mato Grosso e Santa Catarina, tudo isso vem acarretando efeitos negativos para as cidades brasileiras.
Dessa maneira, uma alternativa eficaz para esse problema pode ser a implementação do asfalto permeável. Para o pesquisador e criador do projeto, José Rodolpho Martins, é possível utilizar a CPA nas grandes cidades brasileiras e, aos poucos diminuir o número de enchentes no país.
Como funciona
O asfalto permeável é constituído de camadas. A parte mais superficial, a pista, é composta de pequenas pedras ligadas ao asfalto. Mais internamente aparece uma camada grossa com pedras grandes, que abrem espaços de 25% na camada, para que a água, vazada das pequenas pedras, fique armazenada. Após algumas horas, a água da chuva é sugada por um sistema de drenagem e se encaminha para as galerias pluviais.
Esta técnica, que pode minimizar ou até acabar com as conseqüências negativas geradas pelas enchentes, tem um único malefício: “pesa no bolso” dos governos. A instalação de todo o sistema custa 25% a mais do que o asfalto comum.
O aquecimento global provocado por atividades humanas aumentou a intensidade de chuvas, nevascas e, consequentemente, das cheias registradas ao longo da última metade do século XX, demonstraram estudos publicados nesta quarta-feira (16).
Dois estudos divulgados na revista científica britânica Nature estão entre os primeiros a estabelecer um vínculo direto entre as mudanças climáticas e seu impacto em eventos climáticos potencialmente destrutivos e mortais.
Brasil, Austrália, Sri Lanka e Paquistão têm sofrido cheias maciças, dando origem a questões sobre se o aquecimento global seria pelo menos parcialmente responsável pelo problema.
Modelos de computador já previram há muito tempo que o aumento das concentrações de gases causadores do efeito estufa aumentaria os episódios de temporais.
Mas até agora, o vínculo estabelecido foi amplamente teórico.
“O artigo fornece a primeira evidência específica de que este é realmente o caso”, disse Francis Zwiers, pesquisador da Universidade de Victoria, no Canadá, e coautor de um dos estudos.
“Os humanos influenciam a intensidade das chuvas extremas”, disse o cientista a jornalistas em uma coletiva por telefone.
Dados reunidos entre 1951 e 2000 em Europa, Ásia e América do Norte demonstram que, em média, a precipitação mais extrema em 24 horas de um ano dado – seja chuva, neve ou granizo – aumentou de intensidade nos últimos 50 anos do século XX.
Quando este pico mensurável foi comparado com mudanças simuladas por modelos climáticos, a marca da influência humana nos padrões climáticos da Terra se tornou inquestionável, disse Zwiers.
“A mudança observada não pode ser explicada por flutuações naturais e internas do sistema climático sozinho”, acrescentou.
Segundo ele, o estopim principal foi, simplesmente, uma concentração maior de água no ar. “Em um mundo mais quente, a atmosfera tem maior capacidade de reter umidade”, explicou.
Isto não significa necessariamente que em um lugar onde não chove muito as precipitações aumentarão, acrescentou. De fato, alguns lugares da Terra provavelmente ficarão mais secos.
Mas isto significa que quando um furacão ou uma nevasca acontece, há mais água disponível.
Mas por que demorou tanto para que os cientistas começassem a estabelecer conexões sólidas entre o aquecimento global e eventos climáticos extremos? Uma razão é que só nas últimas décadas a concentração de gases capazes de reter calor ficou mais óbvia.
“Consideramos cada vez mais fácil detectar este indício nas observações”, declarou Zwiers.
No segundo estudo, que procurou descobrir a atuação do aquecimento global do outono mais úmido já registrado na Inglaterra, no ano 2000, um grupo de cientistas, chefiado por Myles Allen, da Universidade de Oxford, contou com o poder das redes sociais na internet.
Os pesquisadores compararam dois modelos climáticos, um baseado em dados climáticos históricos detalhados e outro em um outono de 2000 “paralelo”, simulando condições sem os gases estufa emitidos no século XX.
Eles descobriram que o aquecimento global teria dobrado a possibilidade de tal evento ocorrer.
“Para realmente detectar a diferença entre estes dois mundos, tivemos que repetir esta simulação milhares de vezes”, explicou o chefe das pesquisas, Pardeep Pall, que iniciou o projeto quando ainda era estudante da graduação, em 2003.
“Nós pedimos que as pessoas ao redor do mundo rodassem as simulações para nós em seus próprios computadores, usando seu tempo livre”, acrescentou.
Com base nos resultados deste estudo, o departamento britânico responsável pelo clima está desenvolvendo ferramentas para medir a influência humana em eventos climáticos futuros.
“Este tipo de estudo vai nos permitir quantificar como as mudanças climáticas estão afetando as pessoas agora de forma que deixe de ser uma projeção hipotética no futuro”, disse Allen.
A ferramenta também seria útil, afirmou, para legitimar as demandas de países em desenvolvimento que queiram se candidatar a receber as centenas de bilhões de dólares destinados a medidas de adaptação para as mudanças climáticas.
Pessoas interessadas em emprestar a potência de seus computadores para impulsionar o projeto podem obter informações no site climateprediction.net, que atualmente é realizado com a ajuda de 50 a 60 mil computadores pessoais.
(Fonte: G1)
Diante da falta de planejamento urbano e da ocupação de encostas perigosas, a tragédia em curso na serra fluminense tende a se repetir em outras áreas, advertem especialistas ouvidos pela BBC Brasil.
Eles sugerem a implementação de sistemas de alerta para a população, a desocupação de áreas arriscadas e o planejamento urbano de longo prazo. E, ainda, que as chuvas recebam do Estado brasileiro atenção semelhante à que países com atividades sísmicas e vulcânicas dispensam aos desastres naturais.
Sem tudo isso, outras áreas de risco em todo o país – como encostas de solo raso sobre grandes blocos rochosos, sem rede de esgoto e galerias pluviais – podem sofrer, em verões futuros, o sofrido nos últimos anos nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina.
‘A prevenção aqui tem que ser semelhante à de terremotos no Chile e a de vulcões no Japão’, opina o geólogo Marcelo Motta, professor da PUC-RJ. ‘É preciso que haja continuidade aos planos de mapeamento de risco, remoção das pessoas que vivem em áreas perigosas, planejamento da ocupação urbana e execução desse planejamento.’
Motta, que está participando das vistorias das regiões afetadas pelas chuvas recentes na serra fluminense, diz que há populações vivendo em áreas perigosas nas áreas sul, centro e norte da região serrana do Rio.
‘(Áreas montanhosas) são como uma manteiga derretida. São perigosas, mesmo com florestas. Em áreas assim, não adianta dizer ‘moro aqui há 40 anos e nunca aconteceu nada”, porque o perigo existe, diz.
‘A impressão é que repetimos a mesma fita (de tragédias) todos os anos’, diz o geólogo Antonio Guerra, da UFRJ, que também fez estudos na serra fluminense. ‘Mas falta vontade política para colocar em prática os conhecimentos da academia.’
Ele opina que não é necessário remover a população de todas as encostas do país. Mas, a partir do mapeamento feito nos municípios, é preciso tirar as pessoas das áreas consideradas de alto risco.
Em geral, diz Guerra, essas áreas têm ’solo de pouca profundidade, em cima de blocos rochosos (que podem deslizar). E muitas dessas encostas não têm galerias pluviais e rede de esgoto’. Ou seja, a água de uso humano é depositada no próprio solo, que depois fica saturado com as chuvas. Nesse cenário, o deslizamento é quase certo.
Sistemas de alerta – Luiz Pinguelli Rosa, diretor do Coppe-RJ (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da UFRJ), defende a criação de sistemas de alerta para avisar populações em áreas de enxurradas.
Ele sugere alertas sonoros, conectados por fiação própria, que avisariam os habitantes para a iminência de temporais e deslizamentos. ‘Isso não é feito da noite para o dia, mas tem que começar. E é preciso aliar isso à detecção de temporais, com mais radares meteorológicos’, diz o diretor do Coppe, instituição que, a pedido do governo Lula, sugeriu formas de prevenção de desastres em Santa Catarina após as enchentes de 2008.
Mas o sistema de alerta, por si só, não resolveria o problema em zonas de alto risco, opina ele. ‘Para construções em encostas, não há alerta que resolva. Essas construções são derivadas da cultura brasileira de que ‘comigo nunca vai acontecer nada’.’
Antonio Guerra, que fez um projeto piloto de alerta para um bairro de Petrópolis, sob encomenda estatal, estima que alertas adaptados às necessidades de cada município custariam ao redor de R$ 1 milhão, por meio de convênios com universidades, e poderiam ser preparados em até dois anos. ‘É um custo muito menor do que o das verbas liberadas para o atendimento de emergência.’
Mapas de risco – Apesar de alguns dos municípios serranos fluminenses terem planos de identificação de risco desde 2007, as imagens da tragédia mostravam ‘a ocupação humana em áreas de escoamento’, diz Elson Antonio do Nascimento, professor de engenharia civil da Universidade Federal Fluminense (UFF) que trabalha com planos de áreas de risco e encostas.
‘Mas não vemos mobilização estratégica, de longo prazo. Os municípios têm planos municipais, mas não os implementam. As iniciativas se diluem’, opina.
Para Pinguelli Rosa, ‘muitas vezes os moradores não são avisados de que um plano identificou que eles estão em área de risco. É preciso fazer as informações chegarem à população’. (Fonte: G1)
