julho 30, 2026

Baía da Babitonga: por que os manguezais são essenciais para Santa Catarina

Crédito: Now Boarding

Os manguezais em Santa Catarina desempenham um papel essencial para a biodiversidade, a proteção da costa e a economia pesqueira. A Baía da Babitonga concentra cerca de 75% dos manguezais do estado e é um dos ecossistemas costeiros mais importantes do Sul do Brasil.

Quando pensamos no oceano, é comum imaginar praias, ondas e mar aberto. Mas a saúde dos ambientes marinhos começa muito antes da linha da costa. Antes que peixes, crustáceos e diversas outras espécies alcancem o mar, muitos deles passam por um ecossistema fundamental para seu desenvolvimento: os manguezais.

Presentes na transição entre rios e oceano, os manguezais desempenham um papel indispensável para a manutenção da biodiversidade, para a estabilidade do litoral e para atividades econômicas que movimentam milhares de famílias. Em Santa Catarina, essa importância é ainda mais evidente na Baía da Babitonga, considerada o principal estuário do estado e uma das áreas costeiras mais relevantes do Sul do Brasil.

Mais do que um ambiente natural, os manguezais representam uma infraestrutura ecológica que fornece serviços essenciais à sociedade, protege comunidades costeiras e sustenta importantes cadeias produtivas.

O que são os manguezais?

Os manguezais são ecossistemas costeiros localizados em áreas de encontro entre água doce e água salgada, conhecidas como estuários. Adaptadas à influência das marés e aos solos alagados, suas espécies vegetais desenvolveram características únicas, como raízes aéreas e mecanismos que permitem sobreviver em ambientes com alta salinidade.

Essas condições criam um ambiente extremamente produtivo do ponto de vista biológico. Os manguezais funcionam como áreas de alimentação, abrigo e reprodução para centenas de espécies de peixes, crustáceos, moluscos, aves, mamíferos e répteis.

Por isso, são conhecidos como os berçários da vida marinha. Grande parte dos organismos que mais tarde ocuparão o mar aberto inicia seu ciclo de vida protegida entre as raízes do mangue, onde encontram alimento abundante e menor presença de predadores.

Muito além da biodiversidade: quais são as funções ecológicas dos manguezais?

Os benefícios dos manguezais vão muito além da conservação da fauna. Esses ecossistemas prestam serviços ambientais fundamentais para o equilíbrio das zonas costeiras e para a qualidade de vida das populações que vivem próximas ao litoral.

Entre suas principais funções estão:

  • proteção da linha de costa contra erosão e avanço do mar;
  • redução dos impactos causados por ressacas e eventos climáticos extremos;
  • retenção de sedimentos, melhorando a qualidade da água;
  • ciclagem de nutrientes essenciais aos ecossistemas costeiros;
  • armazenamento de grandes quantidades de carbono, contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas;
  • manutenção da biodiversidade marinha e terrestre.

Nos últimos anos, os manguezais passaram a receber destaque também por sua capacidade de armazenar carbono azul (Blue Carbon), desempenhando papel importante nas estratégias globais de combate às mudanças climáticas.

A Baía da Babitonga concentra o maior remanescente de manguezais de Santa Catarina

No litoral norte catarinense está um dos ecossistemas mais importantes do estado.

A Baía da Babitonga abriga aproximadamente 80 km² de manguezais, inseridos em um complexo estuarino com cerca de 210 km², concentrando aproximadamente 75% de todos os manguezais existentes em Santa Catarina. Essa característica faz da Babitonga um patrimônio ambiental de relevância nacional.

O ecossistema compreende uma extensa área entre os municípios de Itapoá, Garuva, Joinville, São Francisco do Sul, Araquari e Balneário Barra do Sul, reunindo diferentes ambientes costeiros que funcionam de forma integrada.

Além da vegetação de mangue, a região abriga ilhas, canais estuarinos, bancos de sedimentos, áreas de marisma e ambientes marinhos que garantem elevada diversidade biológica.

Por sua importância, a Babitonga é reconhecida pelo Ministério do Meio Ambiente como uma Área Prioritária para Conservação, Utilização Sustentável e Repartição dos Benefícios da Biodiversidade.

Foto de satélite onde aparece a ilha de São Francisco do Sul, a baía da Babitonga com suas ilhas e as cidades de Joinville e São Francisco do Sul.
Na parte de baixo da foto, o canal do Linguado. Reprodução internet.

Um refúgio para espécies ameaçadas

A riqueza ecológica da Baía da Babitonga pode ser observada pela diversidade de espécies que dependem desse ambiente.

Entre elas estão animais ameaçados de extinção, como a toninha (Pontoporia blainvillei), o boto-cinza (Sotalia guianensis), a tartaruga-verde (Chelonia mydas), o mero (Epinephelus itajara), o bagre-branco (Genidens barbus), a miraguaia (Pogonias cromis) e o guará (Eudocimus ruber).

A região também é utilizada por aves migratórias que percorrem milhares de quilômetros durante seus ciclos de vida, demonstrando que a conservação dos manguezais ultrapassa a escala regional e possui importância internacional para a biodiversidade.

Os manguezais sustentam a pesca catarinense

Poucos ecossistemas possuem uma relação tão direta com a economia quanto os manguezais.

Segundo o Diagnóstico Ambiental do Ecossistema Babitonga, aproximadamente 70% das espécies-alvo da pesca recreativa e comercial — artesanal e industrial — utilizam esse estuário para reprodução, recrutamento ou desenvolvimento.

Na prática, isso significa que grande parte dos peixes, camarões, siris e caranguejos capturados no litoral catarinense depende da existência dos manguezais em alguma etapa do seu ciclo de vida.

Sem esses ambientes, haveria redução dos estoques pesqueiros, impactos sobre a biodiversidade e prejuízos para toda a cadeia produtiva da pesca.

Economia, comunidades tradicionais e qualidade de vida

A importância dos manguezais também pode ser medida pelo impacto social que exercem. Centenas de famílias dos municípios que cercam a Baía da Babitonga têm na pesca artesanal sua principal atividade econômica. O estuário também abriga importantes áreas de cultivo de ostras e mariscos, fortalecendo a maricultura, setor em que Santa Catarina é referência nacional.

Além da pesca e da aquicultura, diversas outras atividades dependem da qualidade ambiental da região, como o turismo, o transporte marítimo, as operações portuárias e o lazer.

Preservar os manguezais significa proteger não apenas espécies, mas também empregos, renda e a identidade cultural das comunidades costeiras.

Quanto vale um manguezal?

Os serviços prestados pelos manguezais possuem valor econômico mensurável. Um dos estudos mais influentes sobre serviços ecossistêmicos, publicado por Robert Costanza e colaboradores na revista Nature (1997), identificou os estuários entre os ecossistemas de maior valor econômico do planeta, considerando os benefícios ambientais que oferecem à sociedade.

Com base nessa metodologia, o Grupo Pró-Babitonga, no Diagnóstico Socioambiental do Ecossistema Babitonga, atualizou os valores utilizando o Consumer Price Index (CPI) e estimou que os serviços ecossistêmicos gerados pelo Ecossistema Babitonga correspondam a aproximadamente US$ 958 milhões por ano.

A estimativa considera o conjunto de benefícios proporcionados pelos manguezais e pelas áreas estuarinas, como proteção da linha de costa, manutenção da biodiversidade, suporte à pesca, armazenamento de carbono, melhoria da qualidade da água e outros serviços ecossistêmicos essenciais ao desenvolvimento sustentável da região.

Esses números evidenciam que conservar os manguezais não representa um obstáculo ao desenvolvimento, mas um investimento na sustentabilidade econômica do território.

O papel do licenciamento ambiental na conservação dos manguezais em Santa Catarina

A crescente ocupação das regiões costeiras torna indispensável que o desenvolvimento aconteça com planejamento e responsabilidade.

Empreendimentos instalados em áreas próximas aos manguezais ou em sua zona de influência precisam avaliar cuidadosamente seus impactos ambientais antes do início das atividades.

É nesse contexto que o licenciamento ambiental e os estudos técnicos assumem papel estratégico. Diagnósticos ambientais, levantamentos de fauna e flora, estudos hidrológicos e monitoramentos ambientais permitem compreender a dinâmica desses ecossistemas, identificar riscos e definir medidas capazes de reduzir impactos ambientais.

Mais do que cumprir exigências legais, o licenciamento representa uma ferramenta de gestão que contribui para compatibilizar desenvolvimento econômico, segurança jurídica e conservação ambiental.

Preservar os manguezais é proteger o futuro

Os manguezais são ecossistemas estratégicos para a biodiversidade, para a economia e para a resiliência climática das regiões costeiras. Proteger esses ambientes significa conservar serviços ecossistêmicos essenciais, fortalecer atividades produtivas sustentáveis e garantir qualidade de vida para as futuras gerações.

A Baía da Babitonga é um exemplo de como natureza, economia e qualidade de vida estão profundamente conectadas. Conservar esse patrimônio natural exige planejamento, conhecimento técnico e decisões fundamentadas em ciência. É justamente nesse contexto que a gestão ambiental, os estudos técnicos e o licenciamento desempenham um papel essencial para garantir que o desenvolvimento ocorra de forma sustentável.

Na Ecolibra, acreditamos que promover soluções ambientais responsáveis é contribuir para um futuro em que desenvolvimento e conservação caminhem lado a lado. Um futuro em que ecossistemas como os manguezais continuem desempenhando seu papel vital para Santa Catarina e para as próximas gerações.

Referências

  • Grupo Pró-Babitonga. Diagnóstico Socioambiental do Ecossistema Babitonga (2021).
  • ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Revista CEPSUL – Biodiversidade e Conservação Marinha: Especial Babitonga.
  • Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Áreas Prioritárias para Conservação, Utilização Sustentável e Repartição dos Benefícios da Biodiversidade.
  • Costanza, R. et al. The Value of the World’s Ecosystem Services and Natural Capital. Nature, 1997.
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